[RESENHA] O Diário de Anne Frank
- destilendo
- Jul 30, 2020
- 5 min read

Não é necessário falar muito sobre essa obra. A maioria das pessoas deve ter ouvido falar de O Diário de Anne Frank. Além de ser quase uma leitura obrigatória na escola, há muitos filmes e documentários a respeito, e é um registro histórico muito importante de um período tenebroso que reflete até hoje. O Diário de Anne Frank é isso mesmo, um diário de uma adolescente. A diferença, o que o faz tão especial, é seu conteúdo. Nele, Anne retrata a vivência em um esconderijo secreto de judeus durante a ocupação nazista na Holanda, ao logo de dois anos.
No auge da Segunda Guerra Mundial uma garota ganha em seu aniversário de 13 anos um caderno de autógrafos. Tinha um fecho, capa dura de tecido xadrez vermelho e branco.
O nome da garota era Anne Frank e ela gostava muito de escrever. Por isso, transforma o caderno em um diário. Menos de um mês depois, Anne, a irmã Margot e os pais vão para um esconderijo secreto, onde passam mais de dois anos, com outras quatro pessoas, para não serem enviados para um campo de concentração.
Os nazistas acharam o esconderijo e o grupo não escapou do holocausto. Anne, que era judia, morreu pouco antes de fazer 16 anos. Porém, o diário onde foram narrados os momentos sobre a vida de Anne Frank e os acontecimentos vivenciados no anexo secreto sobreviveu ao tempo. Foi publicado pela primeira vez em 1947 e se tornou um dos livros mais lidos do mundo, traduzido para mais de 60 idiomas.
Somos apresentados à triste realidade que recaiu aos judeus e aqueles que os acolhiam. Muitos eram arrancados de suas casas, tinham seus bens confiscados e eram enviados à campos de concentração onde morriam de exaustão, fome, tortura e pura crueldade nazista. Aqueles que ajudavam judeus e eram pegos sofriam terríveis consequências, como o fuzilamento. Anne relata notícias obtidas de rádios alemãs, holandesas e britânicas, única fonte de notícias confiáveis a respeito da guerra que os habitantes do anexo tinham. Descreve as condições de alimentação, cada vez mais restrita conforme o tempo passa, e moradia precária no esconderijo, a convivência entre os habitantes e os conflitos de uma adolescente.
Hoje só posso dar notícias tristes e deprimentes. Os nossos amigos e conhecidos judeus são deportados em massa. A Gestapo trata-os sem a menor consideração. Em vagões de gado, leva-os para Westerbork, o campo para judeus.
Lá embaixo tem tantas pessoas que não conhecem o nosso segredo! É necessário saber bem as horas de trabalho delas para não fazermos barulho.
Para dizer a verdade, há ocasiões em que me esqueço quem são os que andam zangados uns com os outros e quem são os que já fizeram as pazes. A única distração é estudo, e eu estudo muito!
Em meio à Segunda Guerra Mundial, temendo por sua vida e sua família, Anne Frank se apaixonou, desapaixonou, desenvolveu sua identidade própria, sonhou com um futuro brilhante, entrou em conflito consigo mesma e com sua família, evoluiu e amadureceu. O Diário alterna entre dias que Anne Frank expõe-se como a adolescente de 13 - 15 anos com momentos de imaturidade e sede de autoafirmação, descrições detalhadas do dia-a-dia e da situação sócio-política da Holanda ocupada, e dias de uma Anne incrivelmente reflexiva e madura.
Achei-a fascinante, era uma garota à frente de seu tempo, que não se conformava em ter uma vida comum. Pelo contrário, Anne tinha o sonho de ser jornalista e escritora, naturalizar-se holandesa após a Guerra, conhecer Paris. Inclusive, estava planejando enviar uma de suas histórias, sob pseudônimo, à um jornal – não relatou, contudo, se realmente enviou. Mas não era o tempo todo alegre, tinha seus momentos de dúvida e melancolia, os quais evitava deixar transparecer. Achava que os adultos a viam como uma criança levada, a menina extrovertida e barulhenta que se apresentava ao mundo. Considerava existir dentro de si, duas Annes: a Anne exterior, que todos conheciam, e a Anne interior, reflexiva e silenciosa, que ansiava por um amigo que a compreendesse.
Ontem o ministro Bolkestein disse na emissora holandesa que, depois, da guerra, vão publicar uma série de diários e cartas desta época. Aqui começaram logo a falar no meu diário. E se eu publicasse um romance chamado “O Anexo Secreto”? Não seria interessante? Mas, com esse título, todo mundo é capaz de imaginar que se trata de um romance policial.
Quero continuar a viver depois da minha morte. E por isso estou tão grata a Deus que me deu a possibilidade de desenvolver o meu espírito e de poder escrever para exprimir o que em mim vive. Quando escrevo, sinto um alívio, a minha dor desaparece, a coragem volta. Mas me pergunto: algum dia escreverei coisa importante? Virei a ser jornalista ou escritora? Espero que sim, espero de todo o meu coração! Ao escrever, sei esclarecer tudo, os meus pensamentos, os meus ideais, as minhas fantasias.
E agora outra coisa: já sabe há muito tempo que o maior desejo é vir a ser jornalista e, mais, tarde, escritora famosa. Serei capaz de realizar essa minha ambição? Ou será tudo isso uma mania de grandeza ou até uma loucura? Só o futuro dirá. Mas assuntos não me faltam. Vou publicar um livro depois da guerra: o anexo. Se serei ou não bem-sucedida, não se pode prever, mas o meu diário servirá de base. Além da história do anexo, tenho outras ideias.
E mesmo sob medo constante, condições precárias e conflitos internos, Anne nunca perdeu sua fé. Me emocionei ao me deparar com uma adolescente tão segura de suas crenças, nem mesmo a Guerra a fez perder a fé em Deus. O via na natureza, através de uma janelinha suja que era proibida de abrir na maior parte do tempo. Preciso admitir que essa foi uma das coisas que mais me afetaram.
Quando, à noite, estou na cama e remato a oração com estas palavras: “Agradeço o bem, o amor e a beleza”, então todo o meu ser jubila. Ponho-me a pensar em tudo o que foi “o bem”: a nossa fuga para aqui, a minha saúde; e no “amor”: o Peter e tudo aquilo que é tão delicado e sensível que ambos ainda não ousamos tocar, mas que um dia virá, no futuro, a felicidade. E penso na beleza que envolve o mundo: a natureza, a arte, a grandeza e tudo o que a isso está ligado.
Passei a noite, após terminar a leitura, me questionando, por que Deus não a salvou? E o que diria Anne se soubesse que seu diário virou um sucesso mundial através de décadas? Ela, no fim, se tornou o que mais desejava, uma escritora de sucesso. Mesmo que após sua morte.









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