[RESENHA] Mentira Perfeita - Carina Rissi
- destilendo
- May 23, 2020
- 5 min read
Updated: May 25, 2020

A resenha de hoje será de Mentira Perfeita, da Carina Rissi. Essa história faz parte do universo de Procura-se um Marido, título que amo de paixão, inclusive foi o primeiro livro dela que eu li. Você não precisa ler o livro do Max e da Alicia para entender esse, mas se você já leu pode matar as saudades desse casal maravilhoso nas aparições deles. Não sei como foi possível, mas me apaixonei pelo Marcus, talvez mais do que pelo Max.
Mentira Perfeita traz a história de Marcus e Júlia, que se envolvem através de uma mentira, a princípio perfeita, e cheia de boas intensões, mas que logo se torna verdade e constrói a base para um relacionamento lindo. Juntos eles evoluem, erram, se apaixonam, têm seus corações partidos, crescem e aprendem que a comunicação é essencial em um relacionamento, mesmo cheio de amor.
A Júlia é uma espécie de supergênio da TI, competitiva, brilhante e com o coração mais bonito do mundo. Devido a uma série de motivos (trabalho, cuidar da tia doente, medo de abandono), ela se isola do mundo. Vive para a tia, o melhor amigo e o trabalho. Quando tia Berê tem uma piora em sua saúde, a Júlia inventa um noivo perfeito, que obviamente não existe. Isso parece animar a tia, dar um novo motivo para resistir. Em algum momento Júlia planejava contar a verdade, até Berenice melhorar e contratar o maior casamento da face da Terra para a filha de coração. Com a tia precisando de um coração novo, Júlia segue com a mentira, esperando um milagre, a fim de não causar a Berê fortes emoções.
Enquanto isso, o Marcus que sofreu acidente de moto a três anos e se tornou paraplégico quer mais do que tudo morar sozinho, ter sua independência. Aos vinte e três anos, parece natural que ele vá morar no seu cantinho. Só que mãe não pensa assim, mãe quer manter a gente no ninho até o último momento. Além de dona Mirna, temos Max, o irmão superprotetor. A família só aceita a decisão dele com uma única condição: contratar um(a) cuidador(a). Sempre independente, Marcus fica revoltadíssimo, mas é isso ou continuar morando com Max e a noiva.
Em um encontro casual, Marcus ouve sobre a mentira maluca de Júlia e pensa, por que não? Ele propõe um acordo. Ele se passaria pelo noivo perfeito e Júlia por sua cuidadora, para suas respectivas famílias. Numa primeira impressão de Marcus, Júlia tem a mais absoluta certeza que deve se manter longe dele, mas quem manda no coração? Ou no coração alheio? O de Júlia é rebelde e o de dona Berê precisa de um backup urgente.
Carina Rissi, alterna os capítulos do ponto de vista de cada personagem, nos permitindo sentir como eles, e compreendê-los melhor. Tráz temas como abandono parental, deficiência física e o preconceito sofrido, assédio sexual e desequilíbrio psicológico com graça e sabedoria. Em muitos, de forma mais superficial, mas nem por isso com menos maestria. São sim assuntos pesados, e gatilhos, e apesar de ter um impacto significativo da história não é exagerado em sua abordagem, é feito de forma delicada e é intrínseco ao roteiro. A paraplegia de Marcus, por exemplo, não se torna a protagonista da vida dele. É claro, Marcus carrega seus próprios preconceitos e em determinada altura da trama tem dificuldade de aceitar sua condição. Por muito tempo, encarou a vida após o acidente como algo temporário, mas nem por isso, deixou de ser o Marcus e viveu em função de sua deficiência.
Assim como o medo de abandono da Júlia, sabemos que quando criança sua mãe a abandonou e foi sua tia que a criou, e isso tem grande impacto na vida dela. É dito que ela se esforça para ter sempre o melhor resultado, ser a melhor filha possível, melhor aluna, melhor profissional, afim de evitar ser abandonada novamente. Júlia tem dificuldade de se relacionar com as pessoas. Entretanto, sua essência está ali presente em cada linha, mesmo que seus medos ameacem ofusca-la. O que estou tentando dizer é que a Carina aborda esses temas como parte dos personagens em vez de fazê-los de sobreporem a eles. Não se engane. Mesmo com a carga dramática, ainda é um livro divertido, que garante muitas risadas.
Às vezes você se sente tão sozinho que parece estar à deriva no meio do oceano. Nada à frente, nada atrás, nada em lugar nenhum exceto as ondas que quebram sobre você, ameaçando engoli-lo. Mas algumas vezes – raras vezes – um ponto negro surge no horizonte e vai crescendo até se tornar a silhueta de um barco, até uma mão se esticar em sua direção e você sair do inferno. Júlia era o meu barco, a mão estendida, o ponto negro no meu nada.
Você disse que queria ser meu herói. E você é faz tempo, Marcus, só que não percebeu ainda. Não aquele tipo de herói de capa e cueca por cima da roupa, mas aquele que faz a gente se sentir protegida e querida e... deseja viver a vida. Ser uma pessoa melhor. Aprender a lidar melhor com os medos.
A Júlia é brilhante, ingênua com ar de astúcia e possui um coração muito bondoso, capaz de enxergar o melhor das pessoas. Esse coração tão lindo e generoso não enxerga seu valor e potencial, apesar de tudo, foi muito machucado (pelo babaca do wifi e a mãe). É lindo de acompanhar o desenvolvimento dela, seu empoderamento e sua confiança crescerem com o apoio do Marcus. Marcus enxerga nela, uma mulher linda, brilhante que merece tudo o que o mundo tem de melhor.
- Sabe, eu gosto delas. – Continuei beijando a linha torta e larga. – Você também devia gostar. Você enfrentou a morte e venceu, Marcus. Ninguém sai de uma batalha dessas sem marcas.
Da mesma forma, Marcus é divertido, sarcástico, carismático, cheio de charme e desconfortavelmente lindo. Mas por baixo de todo esse carisma e charme havia cicatrizes que iam além das resultantes do acidente. Marcus se sentia insuficiente, metade do homem que um dia já foi. O que ele demorou para perceber foi que para Júlia e para as pessoas que realmente importavam, a cadeira de rodas não o definia. Ele enfrentou seus demônios, e aprendeu que o normal não existe, o que existe é viver em paz consigo. Sempre haverá medos, o importante é enfrentá-los de cabeça erguida e não desistir.
Eu poderia lutar por ela... Poderia tentar fazê-la me ouvir e, com sorte, me perdoar. Podia fazê-la mudar de ideia de novo.
Mas não ia.
- Nada. Não vou fazer nada. – Júlia havia me contado que seu grande sonho era ser o próximo Américo. Pareceu desconfortável ao dizer isso, como se estivesse sendo tola. E agora a chance caía em seu colo.
A citação acima me marcou profundamente. Carina Rissi nos mostra aqui que quando você ama verdadeiramente uma pessoa, você a põe acima de seu próprio querer. Marcus estava disposto a sacrificar o que era mais precioso para ele, seu relacionamento, para que Júlia vivesse seu grande sonho profissional. Nós sempre vemos as mocinhas mudando seus planos pelo amor de sua vida (nunca perdoarei os roteiristas de FRIENDS pela Rachel ter descido daquele avião), mas quantas vezes são os homens que renunciam a suas aspirações por amor?
Para não correr o risco de soltar algum spoiler, vou deixá-los por aqui.
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